Você provavelmente já ouviu a seguinte expressão pronunciada por alguém – se não foi dita por si mesmo – ao folhear alguma revista de moda: “- não há mais o que inventar! ”

A criatividade é realmente um sem-fim a nortear a produção do mercado de moda. Há, contudo – em tempos de clamor por mais consciência social – um movimento, um novo conceito que começa a ganhar adeptos e espaço cativo no mercado: o Slow Fashion.

Numa tradução livre, a Moda Lenta é um conceito que tem por objetivo evocar uma forma de consumo mais consciente, valorizar processos produtivos artesanais e estar em sintonia com a sustentabilidade.

Logo, as muitas modinhas (por vezes oriundas de tendências previamente fabricadas pela indústria) perdem forças nesse movimento. Aqui, a proposta é da aquisição de uma peça a partir de uma necessidade mais consciente de seu consumo e cuja temporalidade de uso ultrapasse algumas temporadas; ou seja, a vida útil de um bem tem que necessariamente ser útil, portanto duradoura. É o consumo política e ecologicamente correto, pois não há mais espaço para desperdícios e extravagâncias.

Diferentemente de se pensar em produções que perseguem o minimalismo, o Slow Fashion vai adiante, pois ao propor o questionamento sobre consumo vai conscientizar o possível comprador sobre aquilo que lhe é realmente útil e que faz jus a sua personalidade de estilo. O consumidor decide sua própria moda – que pode estar à margem dos ditames do último folhetim. Terá preferência o bem de consumo/moda que preencher o requisito de atemporalidade combinada ao gosto pessoal (identidade com produto) do usuário.

Embora seja no final do ciclo de produção de moda – o consumo propriamente dito – que o fenômeno da desaceleração ganhe notoriedade, ele permeia toda cadeia produtiva do mercado de moda. Ganham visibilidade os modelos de negócios cuja produção artesanal de peças fabricadas em pequenas oficinas ou ateliês gerenciados por apenas um artesão ou por um pequeno grupo deles. Trata-se sim de um fenômeno! Afinal, no atual momento histórico onde a humanidade vislumbra inúmeras possibilidades a partir das conquistas de expansão tecnológica, é curioso pensar que os modelos mais “humanos” de produção (leia-se aqui o pouco uso de arsenal tecnológico) esteja sendo apontado como direção de vanguarda da cadeia produtiva.

Marcas nacionais e estrangeiras como Doisélles, Coletivo de Dois, Maison Ullens, Zanzan e Baia Bags são alguns exemplos de uma lista extensa de marcas que começam a investir na ideia slow.

O que estamos buscando afinal? O que está nos fazendo falta enquanto matéria de consumo? Partindo-se do princípio de que todo produto que escolhemos e consumimos é um fragmento de nossa identidade, a valorização de processos artesanais revela a necessidade de reafirmarmo-nos enquanto seres mais humanos e menos cibernéticos. Percebe-se, de um modo ainda modesto, que começa a existir uma espécie de “rejeição” pelo que se produz em série e/ou de forma massiva. Buscamos consumir produtos que guardem compromisso com nossa identidade, por isso mesmo mais personalizado ou mesmo exclusivo e com qualidade diferenciada. De joias ao tricô feito por agulhas e sob medida para o cliente, o produto de consumo deve reproduzir algo a mais com um significado próprio para seu usuário.

Longe ainda de ameaçar a efemeridade dominante no reino feérico da Moda (e igualmente distante de ser um ciclo a pontuar a antessala de uma nova era da indumentária, o que poderia ser um retrocesso) o conceito Slow Fashion avança e pontua um despertar, uma evolução do pensamento de consumo. É um lembrete social: “keep calm and…” sinalizando um novo tempo na era do consumo de moda.

Acalmando nossa febre pelas novidades cíclicas, a Moda Lenta é uma filosofia que mostra uma faceta madura da Moda e nos chama a atenção para um consumo mais responsável e leal consigo e com a humanidade. É a carta-branca, a liberdade de decisão para dizer que não se quer consumir só porque está na moda ou porque é novidade. Está, portanto, “em alta” o respeito à decisão de consumo consciente!

Moda e Comportamento por Raquel Martins

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